
TERAPIA COMUNITÁRIA: ENTRE NESTA RODA
A Terapia Comunitária é um instrumento que nos permite construir
redes sociais solidárias de promoção da vida e mobilizar
os recursos e as competências dos indivíduos, das famílias
e das comunidades. Procura suscitar a dimensão terapêutica do
próprio grupo valorizando a herança cultural dos nossos antepassados
indígenas, africanos, europeus e orientais, bem como o saber produzido
pela experiência de vida de cada um.
É essa diversidade cultural que faz a grandeza deste País. Possibilitar
a cada um agregar novos valores, é uma riqueza inestimável no
processo de “empoderamento” e na construção da cidadania.
Enquanto muitos modelos centram suas atenções na patologia,
nas relações individuais, privadas, a TC se propõe cuidar
da saúde comunitária em espaços públicos. Propõe-se
a valorizar a prevenção. Prevenir é, sobretudo, estimular
o grupo a usar sua criatividade e construir seu presente e seu futuro a partir
de seus próprios recursos.
A TC nos convida a uma mudança de olhar, de enfoque, sem querer desqualificar
as contribuições de outras abordagens, mas ampliar seu ângulo
de ação. Vejamos:
1. Ir além do unitário para atingir o comunitário. Com
a globalização, surgiram novos desafios: drogas, estresse, violência,
conflitos, insegurança, e a superação desses problemas
já não pode ser mais obra exclusiva de um indivíduo, de
um especialista, de um líder, e sim da coletividade. A própria
comunidade que tem problemas, dispõe também de soluções
e, por conseqüência, torna-se instância terapêutica
no tratamento e prevenção de seus males.
2. Sair da dependência para a autonomia e a co-responsabilidade: modelos
que geram dependência são entraves a todo desenvolvimento pessoal
e comunitário. Estimular a autonomia é uma forma de estimular
o crescimento pessoal e o desenvolvimento familiar e comunitário. A
consciência de que as soluções para os problemas provêm
da própria comunidade reforça a autoconfiança.
3. Ver além da carência para ressaltar a competência: o
sofrimento vivenciado é uma grande fonte geradora de competência,
que precisa ser valorizado e resgatado na própria comunidade, como uma
forma de reconhecer o saber construído pela vida. Poder mobilizá-los
no sentido da promoção de vínculos solidários é uma
forma de consolidar a rede de apoio aos que vivem situações de
conflitos e sofrimento psíquico.
4. Sair da verticalidade das relações para a horizontalidade.
Esta circularidade deve permitir acolher, reconhecer e dar o suporte necessário
a quem vive situações de sofrimento. Isso proporciona maior humanização
das relações.
5. Da descrença na capacidade do outro para acreditar no potencial
de cada um. O aprender coletivamente gera uma dinâmica de inclusão
e empoderamento. Precisamos deixar de apenas pedir a adesão do outro às
nossas propostas, para podermos estar a serviço das competências
dos outros, sem negarmos a contribuição da ciência.
6. Ir além do privado para o público: A reflexão dos
problemas sociais que atingem os indivíduos sai do campo privado para
a partilha pública, coletiva, comunitária. A ênfase no
trabalho de grupo, para que juntos partilhem problemas e soluções
e possam funcionar como escudo protetor para os mais vulneráveis, são
instrumentos de agregação e inserção social. Nós
afirmamos que a solução está no coletivo e em suas interações,
no compartilhar, nas identificações com o outro, no respeito às
diferenças. Os profissionais devem ser parte desta construção.
Ambos tiram benefícios. A comunidade gerando autonomia e inserção
social e os profissionais se curando de seu “autismo institucional e
profissional”, bem como de sua alienação universitária.
7. Romper com o clientelismo para chegarmos a cidadania: o indivíduo
deixa de ser objeto passivo de intervenção para se tornar num
parceiro ativo e sujeito de sua história.
8. Romper com o isolamento entre o “saber científico” e
o “saber popular”, fazendo um esforço no sentido de se exigir
um respeito mútuo entre as duas formas de saber, numa perspectiva complementar,
sem rupturas com a tradição e sem negar as contribuições
da ciência moderna.
9. Romper com o modelo que concentra a informação para fazê-la
circular. Resgatar o capital sociocultural do grupo e torná-los co-autores
das decisões e das políticas sociais.
A TC nasceu no Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade
de Medicina da UFC. Há 18 anos, este modelo tem sido desenvolvido pelo
prof. Dr. Adalberto Barreto da UFC. Já foram formados pela Universidade
Federal do Ceará, cerca de 7.000 terapeutas comunitários atuando
em 23 estados brasileiros.
Adalberto Barreto
(*)email: abarret1@matrix.com.br
site: www.projeto4varas.com.br
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